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O jardim de pedras submerso

Eu não sou Polyanna. Longe disso. Há muito parei de jogar o jogo do contente. Também não sou a Cruela Cruel. Gosto bastante dos bichos. Mais de bichos do que de algumas gentes, aliás. O fato é que apesar dessa atmosfera densa que paira sobre nós, dou um jeito de focar no lado bom das coisas. Sempre tem um lado bom. O fato é que as mudanças de horário que ocorreram no trabalho me deram de presente algumas manhãs livres. E o que a Lana faz quando amanhece um dia cheio de sol e de céu azul? Vai tomar vitamina D in natura, óficorse!

Uai! Moro em frente ao Oceano Atlântico. Rezei duro pra isso acontecer. Tenho convicção de que a cegonha era cegueta e me derrubou por engano no Pilão D’Água: uma represa, não o mar! Enfim, “você não sabe o quanto eu caminhei, pra chegar até aqui” e, mesmo aqui estando, tem dias que nem vejo a cara do mar. Ou vejo de longe, quando vou mostrar a pousada aos hóspedes. De modos que, sinto muito, me perdoe, sou grata, te amo, mas se o dia tá lindão, é pra beira d’água que eu vou, muito feliz e satisfeita!

Interativa por natureza conheço a maioria da galera que rala nas barracas, os vendedores de canga, chapéus, artesanato, milho, sorvete e toda a diversidade que se reúne ali. Vou dando bom dia de uma ponta à outra da Ferradura. “Dia lindo hein”! Todos concordam.

Alguns me conhecem como a louca do lixo. Sempre levo uma sacola pra recolher a sujeira dos outros. Como pode o ser humano deixar seus rastros assim, sem a menor vergonha? Dia desses encontrei dois funcionários da prefeitura e, com a sacola pesada de entulho, perguntei com qual autoridade eu tinha de falar pra que fossem colocadas lixeiras na praia.

– Liga pra Secretaria da Ordem Pública e procura o Sérgio.

Beleza! Ligarei! Talvez isso ajude as pessoas a ajudar o planeta. Na areia não, né gente? Pelamor!

Tá. Que tal descer do banquinho e aproveitar a caminhada, Lana? Olha esse céu, esse mar, um azul o outro verde. Claros e transparentes. Descansa um pouco seus olhos nessa mistura de sal e sol e para de falar tanto. Gira nos calcanhares e repara: nenhuma nuvem! Que tal agradecer por tanta belezura?

– Brigada Deus! Brigada Iemanjá! Salve Netuno! Que todas as vezes que eu esteja a ponto de pirar eu me lembre que o mar está aqui … Que eu não me esqueça nunca da sensação de boiar nessas águas, balançando à deriva, solta, livre… E sempre que alguém ousar me encher os pacovás, que eu volte minha atenção para o que realmente importa…. Assim seja! Amém!

Encerrada a reza, reparo como a maré baixou com a força da lua nova. As pedras que ficam escondidas nos cantos da praia brotaram feito um jardim de estátuas. Deixo minha imaginação expandir e consigo vê-las em movimento, chegando à praia depois de tanto tempo submersas. Passo por elas pedindo licença e faço o caminho inverso, da areia para a água, me tornando parte daquele cenário silencioso e calmo. Por alguns segundos eu, pedras, areia, água salgada transparente, céu azul imenso nos tornamos um só organismo. Somos uma comunhão. Com esse sentimento no peito volto devagar pra margem pedindo mil desculpas à mãe terra pelas cretinices que o ser humano vem fazendo com sua nave espacial.

– Isso não tá certo… eu sei… mas você é guerreira! Já passou por tanta coisa. Esfriou, esquentou, escureceu e continua aí lindona! Não desista, tá? Enquanto eu puder, vou recolher o lixo desses caras. Sei que não faz muita diferença por que são muitos sujando pra poucos limpando, mas não vou desistir. Se você resistir eu também resisto!

Fui falando e andando de costas, braços estendidos, em total reverência à natureza quando… opa! que negocinho foi esse que se escondeu na areia quando pisei? parecia uma fatia de limão ou de laranja, com uma estrela no meio. Que bicho será esse? Oi! Tudo bem com você? Nunca tinha te visto. Tá morando aqui há muito tempo? Nada. Nenhum movimento. Ia cutucar com o dedo. Será que morde? Estiquei o chinelo pra tocar no coiseto e o danado fez o quê? Xixi em mim! Um jato forte, pra cima, feito  a fonte luminosa da praça da minha cidade (lá onde a cegonha cegueta me derrubou por engano). Defendeu-se e foi se enfiando na areia até desaparecer. Fiquei ali com cara de ué. E comecei a rir de mim. “Será que morde”? Não, minha filha! A natureza não morde! Ela só se defende. Até onde der. E se a espécie humana tivesse um pouco mais de juízo e consciência, teria mais cuidado e carinho com o chão onde pisa.

No dia seguinte voltei lá com o celular pra registrar o jardim de pedras e a fatia de limão fugitiva. A maré estava mais alta e o cenário já era outro. Procurei até que achei e dessa vez não ousei cutucar o ser mijão. Me desculpei pelo atrevimento do dia anterior e pedi permissão para tirar uma foto. Tirei várias. Por que não sei tirar só uma. Tiro muitas. E depois fui fazer exatamente o que Isa Colucci falou no post de terça-feira: procurar no google que coiso era aquilo. Achei! Bolacha do mar! Conhecidos também como moedas de sereia. Uau! Procura aí. Vai ver que são invertebrados, primos-irmãos das estrelas do mar e dos ouriços. Tudo da mesma família. Do mesmo ninho. Filhos da mesma mãe. Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amémjesuisnóistudo!

– oi Fernanda! Tudo Capelo Gaivota com você? E vou trabalhar com um sorriso no coração.

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