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Alô? Alguém aí?

Esta semana somaram-se cinco anos da passagem de dona Lídia, minha mãe. Ela embarcou no segundo domingo de agosto de 2016, dia dos pais e, em algum momento, durante o velório, rimos amarelo ao brincar que tinha dedo do meu pai na história pra ela partir em data tão especial e importante.

Cinco anos sem a mãe, 14 sem o pai, posso dizer que sou uma órfã com certo grau de experiência em me virar sozinha. Porém tem dias me dá uma vontade insana de pegar o telefone e contar como vou indo, perguntar como estão, como se não houvesse uma linha divisória entre as dimensões que habitamos. A ciência já inventou tanta coisa, por que não um aparelho mágico que nos possibilite falar do térreo para o andar de cima?

Tenho saudades. Nosso tempo juntos aqui nesse planeta não foi um mar de rosas. Longe disso. Mas hoje sei que foi o melhor que poderia ter acontecido. Havia uma afinidade bacana com meu pai, mas com minha mãe, ao contrário, era quase impossível de existir concordância em qualquer assunto que fosse. Da novela ao futebol. Mas eles eram meus pais e por mais difícil que tenha sido nossa convivência a sensação de orfandade é um buraco negro, um vazio, uma escada sem corrimão, uma casa sem lenha no fogão.

Quando me pego pigarreando como meu pai ou descansando a mão entre o queixo e o ombro como minha mãe comprovo a teoria de que, mais do que genética, temos ligações atemporais e sim: somos nós que escolhemos essas almas para nos transportar a esse mundo.

E eu cheguei chegando! Quase matei minha mãe no parto que durou 18 horas e teve de ser feito a fórceps porque a bonita aqui colocou o braço na frente e empacou. Nem pra frente nem pra trás. Detalhe: eu pesava 4.600 kg. Dá pra imaginar o tamanho do estrago? Não foi a toa que decorei o “Cântico Negro” de José Régio. Tem um trecho que diz assim: “A minha glória é esta: criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. – Que eu vivo com o mesmo sem-vontade com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos”… Então!

Eu não fui flor que se cheire, admito. Beiçuda. Era meu apelido na família. Pra arrancar um sorriso de mim a coisa tinha que ser muito, mas muito divertida. Fugi do pré. Larguei até a lancheira. Não achava graça nenhuma em pintar, desenhar, mexer com massinha. Queria era brincar no quintal da minha vó, com barro, florzinhas e imaginação. Foi pra lá que corri pra me esconder do mundo. No fundo, sempre fui autista em certo grau. Na fase de alfabetização sofri e fiz sofrer. Não me adaptava a nada nem a ninguém. Queria ser aluna da minha mãe! Ela era professora primária em dois períodos e fazia faculdade à noite. Ou seja: eu tinha saudade e queria ela! Compreende agora?

Agora eu compreendo. Aquele ritual de passagem foi mais um parto. De cócoras. Em cima do toco. Atravessei o “Caminho Suave” e a “Cartilha do Dudu” e, a partir da segunda série, nem sei como, engatei a marcha e virei a CDF da turma, na primeira carteira, óculos com lentes fundo de garrafa, estrábica, cabelo joãozinho. Me pergunto como consegui fazer amigos com aquela cara de jaguatirica na TPM. Ui!

Aí veio a adolescência e o bicho pegou feio entre eu e dona Lídia. Ela teve a coragem de ler meus diários pra confirmar se nas tardes de segunda, quarta e sexta eu tinha mesmo ido treinar vôlei. E se nas terças e quintas eu tava no balé. E na datilografia. E na aula de piano ou de yoga. Ou na aula de teatro. Ai ai ai o teatro! Pra quê me abriram mais esse portal? De tanto me imaginar semente crescendo, cavando um túnel na terra até desabrochar e dar flores e frutos fui parar no quartinho de fora, pra onde levei minha cama e meus diários. Chave na porta. Com uma placa de STOP! Aqui não, violão! 

– Mãe, pai, posso viajar com minhas amigas pra fazenda do tio delas (de carona, óculos escuros e muito colírio)?

– Não! Não temos dinheiro pra isso… e não tinham mesmo, hoje eu sei… ela professora, ele contador… era tudo na ponta do lápis e muito contadinho.

– Ok! Vocês venceram! Vou começar a trabalhar pra ter o meu dinheiro! E foi assim que forcei a barra pro meu tio me contratar no seu escritório de despachante e auto-escola. Troquei meu salário pela minha carteira de motorista. Uhu! Antes fui pra academia da minha tia dar aula de dança! Pra criança! Jesus! Como eu tive paciência pr’aquilo? Elas se penduravam na barra em vez de fazer pliè!!! Fiz um developpé e iniciei minha meteórica carreira de bancária. Foi o meu primeiro grand jeté: um ano no Unibanco da Praça Anchieta, em Itapeva, projetando minha mudança pra capital.  Fui. Escolhi a agência que queria trabalhar: esquina da Avenida Paulista com Rua Frei Caneca. Tudo calculado como se nada pudesse me impedir. Nem minha mãe. Fui. Lá fiquei por três anos.

Google Maps: De Itapeva/ SP para o Rio de Janeiro/ RJ

De São Paulo – plim – destino Rio de Janeiro; faculdade de Jornalismo na Facha da Muniz Barreto, Botafogo. Como precisava trabalhar para bancar minha vida fora do útero, cheguei atrasada às salas do ensino superior. Eu com 24 e meus coleguinhas com 17, 18 anos. Obviamente que a primeira carteira era minha. E mais CDF do que nunca, absorvendo tudo o que os professores falavam e correndo contra o tempo perdido.

Hoje, quando olho por trás dos meus ombros quem encontro? Dona Lídia à direita e seu Arnaldo à esquerda. Sorrindo e me desejando boa sorte. Me empurrando pra vida. De longe, mas muito perto. Sério! Com tanta tecnologia avançada por aí (olha nós aqui, nos comunicando através da fibra ótica), por que foi que ainda não inventaram um aparelhinho pra gente falar oi pra quem já foi? Hein?

E segue o Cântico do Régio:

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Não me arrependo de ter seguido os meus passos. Aos trancos e barrancos venho construindo uma história bonita. Minhas filhas e minha neta são as flores e os frutos que farão germinar outros capítulos dessa coisa chamada vida. E chegará um tempo em que não precisaremos mais do que um pensamento pra estarmos todos juntos novamente. Assim seja!

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